Publicidade · Grandes contas
PepsiCo entrega ao Publicis Groupe sua conta global de mídia de 1,7 bilhão de dólares
2026-09-04 · 7 min de leitura
Por Álvaro AbrilCEO de Geniales.co · Director de KingNews.online

Depois de mais de duas décadas com a OMD, a proprietária da Pepsi, Gatorade, Lay's e Doritos consolida no grupo francês todo o seu planejamento e compra de mídia sob um modelo único chamado «One PepsiCo», construído sobre dados e inteligência artificial.
Uma conta que muda de mãos após vinte anos
A PepsiCo nomeou o Publicis Groupe como parceiro global exclusivo de mídia, encerrando uma revisão que a indústria acompanhava há meses. A conta estava na OMD, agência de mídia da Omnicom, há mais de duas décadas, e movimenta cerca de 1,7 bilhão de dólares em investimento publicitário global, segundo estimativas da COMvergence para 2025.
O contrato abrange estratégia, planejamento, ativação, identidade conectada e tecnologia, reunidos sob o mesmo teto. A PepsiCo o batizou internamente como o modelo «One PepsiCo»: um único operador para todas as marcas e todos os mercados, em vez do mosaico de agências e contratos regionais que era habitual em empresas desse porte.
Estamos falando de um portfólio que inclui Pepsi, Gatorade, Lay's, Doritos, Quaker, Tropicana e Mountain Dew, entre outras. Quando uma carteira como essa se consolida em um único parceiro, não muda apenas o fornecedor: muda a forma como a empresa mede, compra e aprende com cada dólar investido.
O que a PepsiCo realmente comprou
O que foi contratado não é um desconto na compra de espaços. É uma infraestrutura. O compromisso da Publicis passa por erguer um modelo de mídia apoiado em dados próprios da PepsiCo, identidade conectada e inteligência artificial aplicada à decisão de investimento em tempo real.
Esse detalhe explica por que as grandes marcas de consumo estão reformulando seus contratos. A compra de mídia deixou de ser uma negociação de volume para se transformar em um problema de engenharia de dados: identificar audiências sem cookies, atribuir vendas em retail media, ajustar peças criativas por mercado e fazer isso com uma latência que nenhuma estrutura manual suporta.
A PepsiCo chega, além disso, em plena transformação interna, com um programa de eficiência que busca liberar recursos e concentrar o investimento em menos frentes e com mais impacto. Consolidar a mídia em um único parceiro é uma decisão coerente com esse objetivo: menos coordenação, menos duplicidade, mais poder de compra agregado.
Publicis Groupe: o líder que reordenou o setor
O Publicis Groupe foi fundado em Paris em 1926 e hoje é o maior grupo de comunicação do mundo em receita líquida, à frente de Omnicom, WPP e Interpublic. Emprega mais de 100.000 pessoas em cerca de cem países e opera sob um modelo que a própria companhia chama de «The Power of One»: uma única equipe por cliente que integra criatividade, mídia, dados e tecnologia em vez de vendê-los separadamente.
Sua vantagem competitiva não nasceu de uma campanha, mas de duas aquisições estratégicas que, na época, pareceram caras e hoje são vistas como visionárias: a Sapient em 2015, que lhe deu musculatura de consultoria e transformação digital, e a Epsilon em 2019, que lhe entregou uma das maiores bases de dados de identidade de consumidores do planeta. Enquanto a concorrência discutia se uma holding publicitária deveria ser uma empresa de tecnologia, o Publicis já havia pago para sê-lo.
Sobre essa base construiu o Marcel, sua plataforma interna de IA, e uma camada de dados que conecta mais de 2,3 bilhões de perfis de consumidores em escala global. Esse ativo é exatamente o que um anunciante como a PepsiCo precisa quando quer mensurar um lançamento no México e na Indonésia com a mesma lógica.
Os números que sustentam a liderança
O Publicis vem acumulando vários exercícios consecutivos de crescimento acima de seus rivais em termos de crescimento orgânico e ampliando sua margem operacional, algo pouco frequente em um setor que enfrentou uma década de pressão de preços. Paralelamente, seus concorrentes optaram pelo caminho da escala: Omnicom e Interpublic anunciaram sua fusão para tentar igualar o porte, um sinal bastante eloquente de quem está ditando o ritmo.
A conquista da conta da PepsiCo ocorre, além disso, com um gesto pouco habitual: o Publicis se retirou da revisão da conta da Coca-Cola. Abrir mão de uma das maiores marcas do mundo para blindar a outra é uma decisão de posicionamento, não de faturamento. Um grupo que pode se dar ao luxo de escolher clientes é, por definição, um grupo em posição de força.
Para o restante do mercado, a mensagem é incômoda, mas clara: a consolidação de contas globais premia quem tem dados próprios, tecnologia proprietária e capacidade de operar em cem mercados com o mesmo padrão. Cada vez menos atores cumprem as três condições.
| Grupo | Sede | Posición | Activo diferencial |
|---|---|---|---|
| Publicis Groupe | París | Líder por ingresos netos | Epsilon, Sapient y la plataforma Marcel |
| Omnicom | Nueva York | Segundo, en fusión con IPG | Red creativa y OMD en medios |
| WPP | Londres | En reestructuración | GroupM, la mayor red de compra de medios |
| Interpublic (IPG) | Nueva York | Integrándose en Omnicom | Acxiom en datos de consumidor |
| Dentsu | Tokio | Líder en Asia | Fuerte posición en Japón y APAC |
O que esta operação ensina a qualquer anunciante
A primeira lição é que o critério de seleção de agência mudou de eixo. Há quinze anos escolhia-se por criatividade e poder de negociação; hoje escolhe-se pela qualidade do dado e pela capacidade de ativá-lo. A PepsiCo não contratou uma agência: contratou uma arquitetura de decisão.
A segunda é que a consolidação tem um custo que convém encarar de frente. Colocar todo o orçamento global em um único parceiro simplifica a operação e melhora o preço, mas reduz a tensão competitiva e concentra o risco. Funciona quando o anunciante mantém a propriedade dos seus dados e da sua medição; torna-se perigoso quando não.
E a terceira, a que aplico na Geniales.co com nossos clientes de entretenimento e jogos: a inteligência artificial no marketing não rende pelo modelo que você usa, mas pela limpeza do dado que você entrega a ela. O Publicis está há dez anos e vários bilhões de dólares construindo esse dado. Essa é a verdadeira razão pela qual ganhou os 1.700 milhões da PepsiCo.
O que observar nos próximos meses
Primeiro, o cronograma de transição. Migrar uma conta global desse porte a partir da OMD levará meses e costuma trazer atritos em mercados secundários; uma execução silenciosa seria a melhor notícia possível para a Publicis.
Segundo, o efeito cascata. As grandes revisões tendem a chegar em bloco, e vários anunciantes de bens de consumo massivo têm contratos próximos do vencimento. Se a Publicis encadear novas conquistas, a distância para o segundo colocado se tornará estrutural.
Terceiro, a resposta do Omnicom. Perder a PepsiCo após vinte anos dói no faturamento, mas dói ainda mais como sinal para o mercado justamente enquanto integra o Interpublic. A fusão terá de demonstrar logo que o tamanho também compra tecnologia, e não apenas escala.
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